E logo continuou a palavrear ácerca do Artista, emquanto eu me explicava a sua vida final, o suicidio provavel, os caixões de revistas que vira em Villa de Frades, e com as quaes elle, por ultimo, quasi obrigado a viver ali, bem por certo, de volta a casa, iria feriar-se daquellas noites mal conversadas com quem, por falta de ouvidos, não podia ouvi-lo,—a elle que fora em Lisboa, o primeiro de um cenáculo de que haviam feito parte, entre outros, artistas como Ramalho e Bordallo, ao lado de curiosos, ás vezes, valha a verdade, bem inferiores ao sympathico negociante, que, ao menos, herdara do seu convivio a devoção supersticiosa da sua memoria!

Como quer que seja, pois que Fialho passou em Cuba os ultimos annos da sua vida, importa-me naturalmente escrever da[{25}] pequena cabeça da comarca o pouco que della apontei de más lembranças.

Como acima referi, não tem ella, para mim, a bem dizer, outro interesse alem do que lhe advem do facto de ter sido o derradeiro exilio do Escriptor, que se dava a disfarçá-lo, administrando directamente as suas herdades.

Especie de villa improvisada, sem paizagem que pudesse entreter, por momentos, o espirito, aliaz exigentissimo do Artista; sem edificios de valor; com repartições inferiores; avenidas lugubres, no geito da Alameda, sobranceira ao Caminho de ferro, e sombria como uma rua de cemiterio; habitações mesquinhas, servidas de ruas mal calçadas; a Estação, a distancia, quasi que fugida da terra que a fizeram servir—tal é, de facto, Cuba, cujo casario abre sobre a campina formidavel do sul como uma aguarella infima![{26}]

E, entretanto, foi ali que Fialho quiz ficar, e mandou que lhe erigissem o mausoleu, que visitei na ultima tarde da minha estada em Cuba, depois de dolorosos transes para arrancar duma adega o chaveiro do Cemiterio.

Ah! como Fialho tinha razão, ao informar-nos no conto—A Ruiva:—«Ha uma coisa peior que um cão damnado: é um coveiro bebado!»

Comtudo, ao lado dum tal coveiro segui eu até ao cemiterio de Cuba, em que, aliaz, coisa alguma de notavel fui encontrar.

Todos os cemiterios, a meu ver, se parecem; o da Cuba vale o Père-Lachaise, como o de Montmartre ou Montparnasse, por nomear os trez mais notaveis de França (onde os homens passam por mais reconhecidos)—como os de todas as terras, ainda os das muito civilizadas e extremas.

Imagine-se um cercado alto, com o ar[{27}] de casa, á qual o vento arrebatasse o telhado, arruamentos de capellas e arcas com lettras de pedra, uma especie de convento de ossos, onde todos os dias ha camas de terra revolvidas e cruzes novas;—a frieza dos brancos e solemnes livros de marmore, das flores, ali casuaes e tranzidas, dos esguios arvoredos, como de todo um pequeno mundo de symbolos;—uma lage-obstaculo em cada campa, e, como a fechar mais os que jazem, gradis, linhas de cimento juntando as cantarias, mais um complicado e diabolico systema de cremalheiras e cadeados!

Eis o cemiterio de Cuba, cujo desenho é, de facto, o de todas as grandes ou pequenas cidades de mortos, dos quaes os vivos se vão desquitando, mais ainda do que cobrindo-os daquelles obstaculos,—quasi esquecendo-os para ali, onde perpetuamente terão de ficar, afastados de tudo,[{28}] onde jámais chegará o proprio carinho selvagem dos temporaes, sós, entre os silencios negros da sua noite immensa, velados dos elementos, a par das esculpturas somnambulas dos tumulos, tambem de si indifferentes, abstractas, e, como por acaso, ali dispostas, ainda por erguerem (paredes-meias dos cinerarios) o formal e glacido tributo da sua agonia fria e lapidar!