III
O PAMPHLETARIO
Abre os Gatos o aviso-cartaz de que o auctor se propõe tratar criticamente os homens e os acontecimentos, explicando, humoristicamente, o nome da publicação.
O primeiro folheto da serie tem a data de Agosto de 1889, e inaugura por um capitulo, pleno de paixão artistica, com seus esmaltes de irreverencia, e a que elle chamou:—Bric-á-bracomania, como cultura e como doença.
No desenvolvimento da curiosa these encontra-se naturalmente com o caso do testamento de D. Fernando. Este caso foi um dos mais antipathicos e escandalosos do tempo, pois que accendeu nos Paços,[{54}] com o odio da rainha pela condessa d'Edla, uma questão de familia burgueza, em que se discutiu tudo, desde a imaginada loucura lucida do principe, ao tempo das suas ultimas disposições, até ao valor e direito dos bibelots e quadros do seu espolio!
Veio a questão para a rua, e, ainda dessa vez, rua e Paço se deram as mãos, na roda de insultos dirigidos á viuva de D. Fernando, sem attenção pela memoria deste principe, cuja probidade foi tratada sem sombra, não diremos já de justiça, mas de delicadeza.
Em nome dos republicanos dirigia, no Seculo, a campanha Rodrigues de Freitas, valha a verdade, serenamente. Por parte do Paço, e vestindo, mais uma vez, a innocente pelle do povo—. escrevia Emygdio Navarro, tratando cynicamente D. Fernando, em quem diagnosticara dois scirrhos—o da cara, que o levara á morte, e o do coração,[{55}] que elle, Emygdio Navarro, se propunha sarjar publicamente, fazendo-lhe a historia na praça das Novidades, e isto, affirmava, por dignificar a memoria do Rei!
Fialho que, de facto, era um delicado, e, por accidente, se fizera politico, e, bem por certo, lhe repugnava toda aquella griteira, tratou tambem do caso moderadamente, chegando a lembrar até a arbitragem para resolver os direitos do espolio controvertido.
Ainda, por egual forma, trata a figura de D. Fernando, cujo perfil surprehende, sobretudo, á luz da sua aventura de amoroso e homem de Arte.