Assim visto, não podia elle deixar de lhe ser sympathico, e dahi tambem o seu elogio, mal disfarçado, como as attitudes em que o focou, e donde mal sobresahe o vulto, ao tempo tão acintosamente discutido, do Rei![{56}]
Quer dizer, em verdade, é ali presente a homenagem do Artista ao Artista, para lá de todo o convencionalismo critico, como de toda a exigencia publica.
Começa o segundo opusculo por um capitulo dedicado ao violoncellista Sergio, e que, neste proposito a que nos obrigamos, de mero indiciador das suas passagens de mais interesse e que melhor o mostram—mal podemos tratar condignamente.
Registe-se, no entretanto, o extremado capitulo, como um dos mais notaveis da sua obra, e, alem de tudo, a forma como elle, sempre tão presente nos seus livros, sabia, embora excepcionalmente, apagar-se, quando as circumstancias lhe conferiam Arte que um tal sacrificio valesse.
É o caso do violoncellista. Para no-lo descrever, Fialho quasi se apaga no café-concerto[{57}] da Mouraria, em que o apresenta, e, onde, de facto, elle costumava ir, ás noites, transfigurando-o da sua Arte, cuja referencia é, ainda, como que a sombra resoante da alma tão extranhamente regressiva do Musico.
Paginas adiante, é tambem com paixão e valor equivalentes que, a proposito das exequias de D. Luiz, trata a figura da Rainha.
D. Maria Pia resalta do seu exame como uma resurreição dos grandes dramas reaes de Shakespeare, ou seja como um verdadeiro prodigio de alma, genialmente estatuada da sua tristeza de soberana-viuva, equilibrando-se no orgulho profissional da sua creação de princeza de raça, acaso abordada ás praias portuguezas.
Inegualavelmente soberba, de facto, a[{58}] sua maneira de tratar a lendaria Rainha que surprehende nos funeraes do Rei como um alabastro solemne!
Assim a tinha sonhado, tanto como o Paço, a propria Rua que, entretanto, lhe perdoava tudo, ainda os mais custosos dispendios, tomando-a, mais do que como Rainha—como uma figura de luxo, especie de marmore vivo, por boa fatalidade, a soldo no Museu Real das Necessidades.
Tambem, por seu lado, ella cumpria escrupulosamente o papel a que, por sua mesma prosapia, se compromettera (fôra cheia de protocolo a sua escriptura de esponsaes)—e dahi o vê-la toda a gente mais do que cerimoniosa, theatral, quasi memoria, seguindo sempre, de par da sua lenda, de que ninguem, nem ainda os mais ousados, tentaram algum dia separá-la!