Quando endoideceu (a natureza é logica; que outra doença devia segui-la?)[{59}] logo os jornaes vieram contar as parabolas da sua loucura, nos Paços de Cintra; corriam historias de toilettes que jámais usara; e, por fim, enterneceu a sua retirada de Portugal, quando, na Ericeira partiu, tão magestosa e alheadamente, como annos antes, tinha chegado...

A differença dos dois espectaculos, estava, unicamente, no tempo, que daquelle passo final da sua vida tinha urdido mais uma tragedia!

Chegara solemnissima, recebida por toda a ordem de festas e alegrias officiaes; retirou, á opportunidade da primeira revolução, como uma rainha usada, que já não serve, e segue, á pressa, devolvida, ao paiz de origem.

Despedimo-nos com pezar destas paginas, que tão fundamente, por si, bastariam[{60}] a vincar a alma do Artista, acaso nellas mal casada á sua preoccupação de pamphletario,—para derivar a outras que, na sua obra, dão o contraste da violencia, talvez, mais inopportuna e abrupta, que ainda instigou critica portugueza!

Reportamo-nos ao caso grosseiro das suas diatribes contra Guilherme de Azevedo que justiçou depois de morto, e declara analysar sobre uma pedra de autopsia, ainda sem piedade por si, como pelos leitores, e quando aquelle, já longe, havia ganho, ha muito, o esquecimento publico!

Na sua quasi diabolica sanha de deprimir vê-o primeiramente no seu logar de escrivão de fazenda em Santarem, onde o surprehende a passear os seus aleijões, de par das suas canseiras de lyrico e apaixonado ridiculo.

Depois examina-lhe, publicamente, os defeitos, as suas fraquezas e purgueiras de[{61}] estrumoso, como a sua obra, na parte mais rebuscada, indo até pracear-lhe os papeis unhados pela lida do chronista!

Por fim, como que convida o publico a assistir-lhe á morte, em Pariz, numa casa de saude!

E, para o caso de que o publico falte, redige elle mesmo a informação da agonia do Artista, passada, esclarece, entre sujidades!

Ora eu não sei de outra hora tão extranhamente infeliz para um escriptor!