Toda a obra de Arte tem a sua infancia que importa ver na prova-estreia do auctor, atravez dos seus defeitos, como das suas virtudes.

Ora essa difficuldade eu senti ao ler os Contos de Fialho, quer pela exuberancia de vida episodica de que esta obra se enreda, quer pelo tumulto dos recursos que já ali o auctor revela.

Exemplificando.

Abre elle este seu primeiro livro por uma historia, em parte de sua observação, e em parte de phantasia,—A Ruiva.[{82}]

Pela intriga deste seu trabalho, vê-se que elle não chegou a realizar uma novella, no rigor geralmente attribuido ás composições deste nome. Bem pelo contrario, o que conseguiu foi uma serie de biographias, ou, mais propriamente, de exquisitas telas.

Fialho, muito do Sul, é, como já vimos, um pintor; ou melhor, um painelista, no geito dos pintores da Hespanha meridional, logrando, pela penna, conforme o seu poder de descriptivo, dar a côr, tonalidades e almas tão distantes e irreaes e, no entretanto, tão signaladamente intimas e perfeitas, como só as encontramos nas prodigiosas collecções dalguns auctores da Andaluzia,—isto a averiguar da impressão das suas manchas, como das suas madonas e dos seus aleijados, ou seja de quasi toda a sua galeria de excelsas e de sinistros![{83}]

Assim, a Ruiva, principal figura do conto em analyse, é uma especie de hyena de amor, transportando-se, quando os guardas do cemiterio saem, á casa do deposito, onde entra para escolher cadaveres!

É pela calma mysteriosa e calada que elle descreve a necrophila Carolina, misto de miseravel e viciosa, tacteando os mortos adolescentes, quasi possuindo-os.

Exquisita figura de virgem, a suave e brutal filha do coveiro, que Fialho trata com enthusiasmo, quasi carinhosamente, ainda na sua faina de amante de formas mortas!

A Marcellina é o typo vulgar da harpia, velha e sabia, que tendo aprendido da miseria tudo o que de mau ella ensina, volvera a sua experiencia num capital que lhe ia servindo para viver...