Para o caso, ella é a alcoveta que vende a Ruiva a um rapazola, o João,[{84}] um precoce torpe, typo de bambino operario, official de marceneiro e fadista, que um momento a possue e quasi logo a abandona.
É filho dum bebado e duma desgraçada que elle, ainda creança, vae encontrar, pela ultima vez, na morgue, depois que a acabaram os maus tratos do marido.
E, tambem, dahi a sua historia, que em si resume a vida natural de todos os tresnoitados pelos portaes e escadas.
Por fim, fecha o conto o relato da faina livre de Carolina (a Ruiva), primeiro assalariada numa fabrica, depois pelos quartos andares, vendendo-se a todos os vicios, até que, roida da tuberculose, chega ao hospital, donde sáe aos pedaços, como um gesso em cacos!
O seu enterro descreve-o o Artista no primeiro capitulo, como para impôr, logo de começo, o conto, de tal arte iniciado, á[{85}] maneira romantica, pelo seu episodio mais pio e sinistro.
É ahi que apparece a figura do coveiro, pae da Ruiva, uma especie de Antonio Pedro no Hamlet, acaso transportado á taberna do Pescada, onde o Contista o apresenta, bebado, a commentar a morte da filha!
Eis a noticia-summario do que temos pela estreia de Arte de Fialho, em 1878, ou tenha sido do tempo de quando elle, intencionalmente realista, com suas tintas de Hoffmann, se deu a iniciar a sua obra por uma figura, aliaz nada casual—a Ruiva, cuja caveira nos aponta, ao fim do livro, sobre a sua banca de contista-medico, não se sabe bem, se como um despojo de estudioso, se como um cofre de osso de que antes, por capricho, se dera a extrahir uma novella...[{86}]
Como quer que seja, esta realiza menos o que pretende ser—a biographia da filha do coveiro—do que a primeira galeria de figuras da sua maneira extranha de pintar, e onde a Ruiva acaso surge como que sombreada daquella maceração e tinta de luar que Zurbaran parece ter composto já da eternidade para espectrar as figuras tão suavemente doentes dos seus monges!
E, entretanto, como ali está, naquella simples novella todo o seu original processo, desde o poderosissimo descriptivo que lhe anima o melhor da obra, até á sua pintura, ainda narrativa, de costumes; a hesitação do Artista no papel violento ou declamatorio dos personagens; a sua maneira dispersa e fragmentaria; o dialogo; a imprecisão de traços; a preoccupação das grandes telas; a falta de peças no esqueleto do seu trabalho; a paixão de[{87}] certas figuras, como de certos logares; a sua dolorosa e sensual sanha de necrographo, de par dos seus carinhos, como dos seus sustos pela morte; o monstruoso dos typos, desgarrando, autónomos, um drama proprio; o sentido da vida no que ella tem de mais intimo, como no que pode suggerir de mais esparso; a falta de ajustamento e equilibrio no curso da acção; e, para alem destas qualidades e defeitos, dos typos, como das situações, o Auctor, exuberante da sua razão de belleza a esmo, desmedindo, revolucionando a Arte, por servir a Arte; no seu intimo medroso, e instinctivamente avesso, se não inimigo de todo o methodo;—e, entretanto, sempre elle, comsigo mesmo, fazendo valer o defeito pelo que nelle nos dá de grande e imprevisto; creando das suas desproporções, uma Arte propria; arruando de graça a cidade amoral dos seus viciosos; enscenando[{88}] a vida do verde-amarello da sua biliosa de pamphletario;—e tudo como quem empresta a sua fatalidade de exotico aos homens e coisas a tratar; e sempre para alem de todas as convenções, como de todos os moldes academicos!
Particularizemos, ainda um pouco, este seu processo, não tanto por firmar principios, como por tratar do seu ousio de Artista, ou seja das suas figuras de imaginação, visto que esta não é, nos emotivos do seu destino, mero delirio do sentido, mas, pelo contrario, uma força ainda a avaliar das suas creações.