O Manuel é, sem contestação, a mais sincera figura da sua galeria de Nocturnos. É um ser que da sua propria alma o Escriptor edita; e, de si, nos dá como um ex-voto á sua tortura de humano quando, penitente da propria escravidão da sua Arte, della se entrega a versar o que de mais inquietante ella tem:—o indefinido da sua universalidade dolorosa e reveladora. Quer dizer, é ainda menos do que uma obra de Arte, um espelho doloroso, em que elle se transfigura dos seus[{93}] medos, como dos seus sonhos,—dando-se ahi, de facto, como melhor nos não podia surdir:—no espectaculo da sua figura de receio, ou seja no esgar caricatural e dramatico da sua afflicção de presciente.
Mas reconstruamos, tanto quanto possivel, por palavras suas, a sinistra figura de Manuel, ainda por melhor a esclarecer.
Primeiramente a creança:
—«Era aos nove annos como uma figurinha de aguarella, fina de carnes, os cabellos sem pigmento, as unhas longas, a voz avelludada e com demoras sentimentaes em certas inflexões—amando a solidão e as musicas plangentes, colleccionando estampas de castellos, terrivel no amor como no odio, e duma volubilidade tal na phantasia, que era impossivel prende-lo a uma lição por meia hora, sem elle cortar o assumpto com extravagancias de mimo e enfant gaté.»[{94}]
Mais:—«Tinha a feminilidade da igreja, o nervosismo do incenso, paixões quasi physicas por imagens, sentido este que nunca se lhe apagou de todo, e que a reclusão de Campolide exasperou a um mysticismo de fazer inquietações aos proprios padres.»
Quando já homem, «no typo de algarvio, branco de cera, idealmente puro como a afilada gravação dum camafeu, a sua belleza tinha transcendencias extaticas, uma pacificação de tinta lurenta, macerada, esfallecida de insomnia; e dava a impressão dum destes insexuaes no gosto da Seraphita, cujo mysterio desorienta,—por terem tudo o que faz sonhar, sublinhado por tudo o que faz soffrer.»
Esta a epoca em que o Escriptor melhor fixa o drama de Manuel, que já daquelles retratos, resulta menos uma figura autonoma do que uma imagem de[{95}] especial e entranha vocação, especie de seraphim de egreja, dahi fugido por viver a vida emprestada do Artista que o elegeu.
Mas sigamos, ainda mais vagarosamente, o graphico doloroso das suas grandes azas de anjo bohemio...
Manuel chega a Lisboa quando—diz o Artista—«a bem dizer já ninguem esperava por elle», isto é, «quando decrescia no Martinho a terrivel phalange dos revoltados á Byron, e entrava a achar-se um tic pulha nas attitudes procuradas, nas vozes de chibato, nos olhares revoltos, e mais artificios de que até ali os homens de lettras se revestiam em publico, por fugir ao molde burguez da outra gente.»
Era uma figura «toda nervos, altivo como se viesse de berço real», a preceito recortado pelo Artista, do seu album intimo,—o que lhe reproduzia as sombras carinhosas dos «bellos seres de excepção do[{96}] seu cyclo, os da extranha lumininosidade interior» que ante a sua «mysantropia moral» conseguiam impor-se, pela mesma razão do seu genio,—de que elle via chispar, a par de extravagantes «inauditismos» «maravilhas minusculas» da mais emotiva Arte.