Chegado a Lisboa, ei-lo, primeiramente perplexo, o pobre Manuel, no papel de anjo despregado, e, como que por acaso, transferido da Egreja da sua aldeia ao museu vivo duma cidade tão falha de interesse que nem sequer tem torpeza propria;—depois vivendo o expediente dos sem-recursos, longe dos seus, luctando entre o seu pudor de Artista e a intranquilidade do seu genio atrabiliario e dispersivo.
Esta inadaptação é a mesma que depois lhe dá a Tragedia—aquella «tragedia dum homem de genio obscuro», que Fialho extrae da sua caprichosa maneira de reagir,[{97}] tal como devia sahir-lhe, lavrada de ironias—como daquella philosophia e tristeza que enchem a obra a que o Artista dá o nome de—«Esculptura em fragmentos» pois que «dos seus avulsos bocados» ninguem poderia tirar mais do que «mutilações de uma grande estatua...»
Ora, dessa estatua nos apresenta elle, a par de bocados infimos, com extranhezas caricaturaes e laivos dum rir doente, boutades e dôr inferior, por demais fragmentada, quasi sem significação de Arte,—trechos formidaveis, como certas passagens da «Noite de Alcacer Kebir», aliaz tão lugubres e intensivamente trabalhadas como raro encontramos outras, ainda na obra de Fialho.
E, entretanto, não é a Arte de Manuel o que mais interessa da sua biographia.
O que melhor vale, e della resalta, é a sua mesma reacção, ainda mais que de encontro[{98}] ao meio alheio, quando do ruflar do seu genio no intimo de si proprio!
Esta lucta fóca-a o Artista da sua lente amarello-lugubre, desde a primeira infancia do bohemio até á edade da «fixação do seu typo de adolescente» que estatua da «hereditariedade», desenvolvendo-se, determinando-se, sobretudo, na vida de collegio—na sua reclusão de Campolide, onde toda a ordem de factores apropriados, ajustando-se-lhe «como serpes» se porfiam «a esfuriar nesse corpinho espurio» todos os instinctos do seu genio de tarado, e que de si erguem o perfeito modelo morbido que, effectivamente, chega a realizar.
Na sua vontade lassa nada mais governa que o proprio instincto do luxo, do inesperado, da extravagancia da sua ideação frouxa e admiravel,—como a inclinação bohemia da sua vida de acaso, á[{99}] qual se dá, sem que alguma vez se interrogue.
Ainda por dessedentar os nervos, logo de começo perros ás suas exigencias, entrega-se á embriaguez.
Tinha necessidade de excitar-se, de viver violentamente os seus delirios, ainda como por melhor escutar a sua nevrose, de tal arte mais nitida á sua sensacional expectação.
Intermittentemente cahia em marasmos; tinha «syncopes de intelligencia» que eram como que sombras daquella sobrexcitação e o derivavam do seu tumulto ao que Fialho chamou os seus «crepusculos intellectuaes com sobrelaivos de perseguição e delirio religioso.»