Nuno, levantou-se para cumprimentá-las, mas antes que tivesse tempo de fazê-lo, já Salomé o inquiria sobre a falta da vespera e aversão ás reuniões do sabbado.
—Estava agora para explicar a Maria Peregrina a razão da minha falta.
Ainda bem que a sua chegada me salva de repetir-me. Ia dizer que não gosto das reuniões do sabbado porque me aborrece a collecção de letrados que geralmente juntam. Além do chronista, que é sujo, tão effectivo na immundicie como nos serões, ha os dois poetas, que reputo duma pelintraria intellectual abaixo de tudo, deputados, os dois ministros—todo o indice da familia portuguesa que trato a distancia. Não sei como pode aturá-los, concluiu, olhando para Peregrina.
—Aturo-os bem, e divertem-me: são originaes na sua ingenuidade. E eu quando vejo alguem original exulto. A vida é tão monotona, a gente escorreita tão pouco interessante...
—Sabe? interveiu Salomé, voltada para Nuno: tambem esteve hontem a mulher do pintor...
Vinha pasmosa de côres e toilette. As tintas do cabello e da cara, desacreditavam, de vez, o marido.
—Se é o marido quem a pinta ou lhe inspira a côr, o que nunca ouvi, objectou Violet. O contrario é que parece verdadeiro; é ella o modelo, a razão da arte como dos infortunios do pintor.
—Coitada, commentou Peregrina, que pena me dá! Deus deu-lhe um cerebro estreito, que mal chega para a moral burguesa. E teima em ser alguem! Quando, afinal, nem tem vontade de ser boa, nem talento para ser má.
O horror que deve ser o conflicto da carne escandecida pelo temperamento sem a menor centelha de genio que o aproveite!
—Ah! commentou Nevogilde, essa, apesar de tudo, é sympathica no seu remoinhar de toilettes de rainha pobre de tragedia...