Quem eu não aturo são os outros.

Umas creaturas tão enfezadas, tão pobres de corpo, como de alma... Que miseria!

—Nuno! observou a Artista, delindo as palavras num sorriso:—não me faça arrepender do conceito em que o tenho. Demais, esse luxo de parecer forte denuncia fraqueza...

Que mal lhe fizeram as minhas visitas de sabbado? Seja bom! A inferioridade dos outros é que faz o nosso talento.

Nevogilde ia a replicar, quando sentiu refolhar o reposteiro e surgir a cabeça quasi branca de José d'Andrada.

—Olá, monsenhor! Então que vae?

—Uma optima temperatura nesta sala, replicou o padre. Estou certo de que é o unico compartimento civilizado de Lisboa, pois que tem tudo—espirito, luxo, calor...

E sorria, numa expressão boa, encarando Peregrina e os companheiros de serão.

—É verdade, observou Nuno. E, entretanto, se o monsenhor não viesse de fóra, do frio, já nem agradecia esta temperatura e companhia.

Eu creio que até no ceu haverá dezembros para que haja camaras mais reconditas onde Deus alumie e aqueça os escolhidos. Não lhe parece, monsenhor?