—Sei lá! respondeu Andrada. Nunca me dei a averiguar se o ceu tinha calendario, mas creio que não, pois que, apesar de relapso, segundo os vigarios de Deus na Terra, quando leio o Breviario não dou pelo tempo...

—O monsenhor quando morrer não chega a estanciar no purgatorio, tão lavada é a sua vida neste mundo!

—Não sei, sr. Conde, como Deus vê as nossas obras! Se as avalia pelas intenções, estou certo de que nos absolverá a todos, seja qual fôr o conceito que o mundo faça de nós.

Elle vê-nos ainda informes. Sabe o que o destino vale contra as creaturas. Creio que castigará a maldade, mas será bom para a desgraça, perdoará os nossos erros.

De certo, ha de prosperar-nos no ceu segundo as intenções.

Por ellas saberá quem são os limpos de coração.

—Como poderá passar no ceu sem a Mouraria? perguntou Nuno, rindo, voltado para Ruy.

E dirigindo-se a Maria Peregrina:

—Não imagina, é uma sereia bohemia. Como sente a vida humilde dos que viciam por essas ruelas e sabe insinuar os imprevistos que por lá existem!

—Ahi está um emprego que me dirá bem, affirmou Ruy, em sua voz cantada: serei o informador junto de Deus da miseria que sei.