Oh! perdôa-me Peregrina. Não sei que loucura foi a minha. Estive a conversar demoradamente ácerca de ti. Contei-lhe, de boa fé, a historia da tua vida. Mostrei-lhe a carta. E elle, o miseravel, roubou-a quando sahi do quarto, á mistura com uma trancelim de platina e umas notas de banco que tinha na mesma boceta. Perdôa-me!

—Perdôo. Contudo, não podes continuar aqui.

O que succedeu foi uma fatalidade, mas eu dou por toda a indicação! Irás abraçar os teus. Tambem vou sahir de Lisboa, desta villa, com pretenções a terra civilizada e que só tem de civilização o peor:—alfobres de litteratos—genero-Miraz, gafos de toda a ordem, a especular escandalos.

Vaes para Londres. Eu vou escolher um ponto retirado, á beira mar, esquecer-me...

Na mesma tarde conversava Nuno com a Poetisa, acerca dos episodios do dia. E combinavam ir os dois passar o outomno á Figueira, a viver o socego da praia, á hora em que os banhistas retiravam.

Nuno demoraria em Lisboa quinze ou vinte dias, a liquidar negocios. Maria Peregrina partia immediatamente.

[XIV]

—Porque és tu tão esquivo aos meus affectos, depois da convivencia que temos tido? perguntava Nuno a Ruy, sentados ambos num banco de azulejo arabe, no parque do Palacete-Fóz.

Vês a incondicional devoção que tenho por ti, como sei ouvir os teus casos...

Senti o prazer amargo das tuas confidencias:—os amores innocentes com Paulina, aos treze annos; e as luxurias de dois annos de collegio com escolasticos anemicos. Viste a cordura com que ouvi tudo—sonhos e miserias adolescentes. Estimo-te como o destino te engendrou. Que prevenção é, pois, a tua contra mim? A cada momento sinto que me repelles...