—Sim, disse o Vagabundo, separa-nos a raça. Attribuo as mais das batalhas intimas aos fios de sangue nobre que me laivam o temperamento. Vejo mal as figuras de privilegio; como já te disse, só vivo os affectos que me não melindram. Não sei o que vale a amizade. Dou pelo interesse extranho, e raramente por uma ou outra figura de Belleza humilde. Propriamente culto não tenho por ninguem.

Nem sei porque, seduz-me o teu espirito, mas vexa-me o teu affecto. É um caso de sensibilidade que não apercebo bem. Mas não falemos nisso. Conta-me os teus delirios com Peregrina.

—Sei lá o que hei de contar:—amarguras. Tambem nos afastam razões intimas. Deante della, sinto-me abdicar de mim. Sou uma força que o seu amor explora. Goso e soffro segundo o seu capricho. Dá-me um amor que me faz ganhar a eminencia de sensualidades supremas, e me despenha, cégo, ás minhas fraquezas, onde tropeço com nervos e hysterias. Ainda bem que partiu. O mêdo que me causava!

Vou escrever-lhe a denunciar-lhe este mêdo e o proposito de jámais a encontrar. Dóe-me a desillusão que vae sentir. Mas, deixemos isso...

Agora sou eu quem relega o assumpto que deste.

Canta alguma coisa; quero ouvir-te o Fado triste...

—Vá lá, disse o Vagabundo, tangendo a guitarra que levantára da extrema do banco.

E interrogando-se:

—Que lettra ha de ser? Será uma velha Cantiga, a ultima que me ouviu Paulina, em Villa Alva.

E, desviando os olhos de Nuno para os espalhar, num além de reminiscencias, cantou em voz branda, os treze versos: