Esse paiz era ella mesma, nevoenta como o espirito que o creára para si.

De Mira-Mar avistam-se as terras barrentas do Cabo Mondego, morrendo na agua, o lindo casario da serra, branco e religioso como um systema de ermidas, bellos poentes, tudo o que o abraço do mar e da serra pode dar de grande, como expressão de paisagem voluptuosa.

Do Mirante distingue-se, nitida, a linha do Cabo, que lembra as navalhas recurvadas que usa a gente do norte, e em que o mar figura como uma lamina, resplandecente de sol, a certas horas.

A Cidade, rica de luz e notas imprevistas, é das que mais convidam a noviciar amores.

Mas Peregrina, crestada pela vida, muito oxydada de alma, passou os primeiros dias do outomno recolhida numa rememoração de si propria, que nem o mar, nem toda a belleza da terra seriam capazes de delir.

Havia uma grande affinidade entre ella e o tempo. Reflectia o outomno na sua physionomia de sombra, vincada de traços melancholicos, que signalavam uma belleza de occaso, especie de imagem de marfim antigo, vivendo o seu crepusculo de idolo abandonado...

Aquella physionomia, talhada em sombra e chamma suave, não era já o involucro, a mascara; era a mulher toda,—a alma a esbater-se em luz de outomno.

Na segunda quinzena de outubro fez-se-lhe no espirito alguma trégua.

Sahia, ás tardes, a percorrer a praia, embevecida no scenario discreto da linda terra de pescadores.

Aves marinhas andavam aos bandos, misturando o som rouco da sua voz á voz da agua inquieta, e esvoaçando sobre o mar que parecia uma geleira arada, muito riscado de fitas brancas, ondas regulares, certas, espreguiçando-se, com volupia, numa luxuria rhythmica.