Quasi toda a adolescencia morena da praia, afrontava nua o mar, confundindo a sua carne côr de mel com as vagas serenas daquelles restos de oceano.

E Peregrina, de olhos fitos naquellas formas, batidas pelas ondas, vivia então sua belleza em massa, irmã em amor dos bronzes que para ali boiavam doidamente, sentindo na alma aquelle mar, aquelles corpos humidos e macios, tudo...

Ia ao outro lado numa bateira branca aos areaes de Lavos, muito sensivel á musica dos remos, espadanados por dois moços fortes.

Tardes côr de graphita.

Era á hora em que as gaivotas, as rôlas e as negrelas põem accentos circumfléxos na tarde, limitando a altura, num sob-ceu de asas.

Passava horas nas praias fronteiras á Figueira, esquecendo-se, até se deixar dominar por aquella belleza de chromo, vivendo as cambiantes do ceu de outubro, duma belleza intima e serena.

Nuvens côr da terra accrescentavam o Cabo até ao sol, que primeiro se projectava em amphora de luz, e depois morria numa brasa, a boiar no mar.

Já noite, tomava um remo, ao lado dos moços da bateira, e ahi vinham todos, muito certos e irmãos naquella labuta embaladora, de olhos fitos no pharolim, que se ergue entre o Mondego e o Oceano—um polyedro verde que lembra um pedacito de mar-esmeralda, gelado, para nortear noctivagos da agua.

Nalgumas tardes ia até á explanada, junto do Forte, para sentir a maré contra a muralha e avistar o recolher do sol.

Passava o tempo a ler as côres em que se dispersava o dia, as tonalidades roxas que preparam a passagem para a treva.