Os relampagos, que pareciam abrir o vidro em letras chinesas, quebravam em linhas de fogo contra os bellos corpos de topazio.
Havia sempre na ronda um predilecto com quem Peregrina trocava especiaes lascivias...
Illuminada pelo fogo duma paixão inconsumivel transfigurava-se, fundindo a alma em corpos eleitos, que vestia de delirios em dispersão de beijos. Beijos mudos, impressivos como a alma que os mandava, parecendo romper a seda-lacre dos labios que os praticavam...
No entanto, as dansas continuavam, como um pretexto de enleio daquelles corpos atarantados, rematados por faces pallidas, esbatidas de penumbra, de risos brancos e gelados, inculcando o torvelinho a que se entregavam por mero capricho duma artista louca.
Ia para o mar num yacht oriundo dos estaleiros de Portsmouth. Vivendo na attracção dos perigos, sahia de preferencia em horas de tempestade, pondo á prova a coragem dos companheiros, em geral ephebos.
Era em dias em que o mar respira fundo, erguendo-se em violencias de desejo.
As ondas, que na praia são rolos brancos, morrentes em torvelinhos de catarata, tomam na barra a expressão aguda de fundos verdes, quebrados, de garrafa, esfarrapando cambraias.
Seguia o yacht, côr de turqueza, desenhando letras de alphabeto liquido, mysterioso.
E Peregrina, irmã pela alma daquelle tumulto verde, ia afogando pensamentos no remoinhar de agua em desespero.
O barco, ora arremettia contra as ondas, despedaçando-as, ora as subia, suavemente.