Uma tarde, conduzia pelo braço, segundo o costume, monsenhor Andrada até o eirado eminente ao mar.
Seguia-os Jacob com duas cadeiras leves, fechadas.
O ataxico movia as coxas com esforço, atirando ao acaso as pernas de fantoche, dondas como travesseiros de moinha. Sentaram-se os dois, o padre muito amparado por Peregrina.
—Sabe, disse esta, que escrevi ha duas noites o meu testamento? Posso morrer breve...
—Suggestões da minha miseria, disse o monsenhor. Eu hospédo metade da morte. Sou o caixão de metade do que fui. V. Ex.ª a pensar em morrer, uma creança! Isso é para os velhos e doentes, como eu.
—Engana-se. É tão facil morrer, sobretudo quando temos o culto da Morte! Entendi que devia empreitar obras posthumas. Vou dizer-lhe a minha ultima vontade.
E, desdobrando três folhas de papel azul, leu:
—Eu, Dona Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de Dona Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de Dom Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, natural do Mosteiro, cidade de Guimarães, resolvi fazer o meu testamento pela forma que segue:
Primeiramente elévo a alma a Deus, sagrado em si e nas minhas desventuras; foi reflectindo-o, que soube sentir a majestade do Infortunio. Que ninguem cuide dos meus funeraes; o Acaso os cuidará.
Dos bens de fortuna disponho assim: