Projectava-se no chão lizo, que circuitava o muro, uma sombra de renda.
Era a silhueta das ameias e frontal.
Passados minutos, abriu-se uma das folhas da porta-fronha. Appareceu a cabeça grisalha dum minhoto authentico, a inquirir quem eramos, e o que queriamos.
Expliquei a chegada, e fui introduzido no primeiro salão de Lares, e, a seguir, abraçado por Maria Peregrina, muito admirada da temeridade, por ter ido sem a avisar.
—Que me teria mandado a carruagem, informou, e para o atalho a liteira;—que eu suppuzera as estradas do Minho similares em arranjo ás grandes avenidas do Rio de Janeiro—uma amabilidade para Lares, que me sahira cara...
E eu, desmanchado, confirmava—que era pouco cauteloso, embora muito experimentado em desenganos; que devia contar com a sua generosidade, evitando aquelle desastre. E, deprimido, sumia-me numa cadeira larga, commodissima, e um pouco de geito a reparar as torturas mais reparaveis da jornada.
Estive assim dois quartos de hora, succumbido, deante de Maria Peregrina,—que me lamentava, maldizendo o caminho e a minha idéa de jornadear á doida.
Dentro, na sala proxima, conversava-se em surdina.
Levantei-me quando me senti reanimado a despir-me da poeira, voltando, em seguida, ao salão donde fui com a Artista para a casa interior—a das visitas, onde conversavam as duas pessoas que ouvira antes e Peregrina me apresentou:—o prior do Mosteiro e uma senhora de edade, a Morgada de Soutello.
O prior, homem de meia edade, usava batina preta muito cingida, caseada a roxo a dizer com a volta e faixa larga de seda, e um anel de amethysta, em oiro simples. Tinha o nariz adunco e estreito, sobre que assentavam uns oculos quadrados de lentes grossas a inculcarem pronunciada myopia, que não prejudicava o seu olhar resignado, vasando um espirito intelligente e manso.