Ao lado havia milheiraes espessos; perto, alas de giesta, florindo as curvas mal lançadas da estrada; na borda dos campos—choupos nodosos, a apoiarem vides grossas, de cachos verdes, cerrados; mais para além, nos panos altos—renques de pinheiros bravos, que pareciam tocar o ceu, fogo e madre-perola.

Nas Taipas demorámo-nos. Quando seguimos era noite; recolhiam os aquistas aos hoteis, na mira das dansas e da intimidade dos salões. A estrada, a partir dahi muito guardada pela ramaria das carvalheiras, que bracejavam fóra das divisorias, era pouco passeada á hora em que a percorriamos. O carro seguia extenuado, vagaroso, denunciando a má rodagem; ouviam-se os arreios folgados, de encontro ao corpo magro dos garranos, o estalejar do chicote, as pragas do cocheiro, teares abrindo falsete na toada crepitosa da noite.

A uma legua das Taipas o carro inclinou para a direita; os solavancos multiplicaram-se. Interroguei, receoso, o boleeiro:

—Que rumo levamos?

E, dando por um pontão, que pouco mais dava ao carro do que uma tarja de palmo—pedia-lhe cuidado, aconselhando-o a parar, pois me não convinha ir ter ao leito do ribeiro, muito cavado e pedregoso.

—Que eu era um dorido, commentou o homem, sereno; que aquelle era o caminho velho, o mais curto, e dahi por doze minutos estariamos em Lares.

Seriam nove horas, proximamente, quando chegamos.

Exultei; estava, pois, em Lares, a bem dizer na Terra Santa...

Apurei a vista, e, enquanto o cocheiro batia á porta-fronha, espionava eu, fóra do carro, a cerca alta do solar, com ameias de metro, alternadamente rectas e recurvas, sobrias de desenho.

Cortava o muro, a meio, um enorme frontal, inserindo um escudo ramalhado de signaes heraldicos, a que um capacete fidalgo punha fecho.