Noite alta, trepava Jacob pelo gradil do nascente, que cerca o Mirante, ganhando o peitoril da janella, fronteira ao Mondego.
Sobre um pequeno bufete Renascença, pousava um pergaminho mal enrolado, que pendia até meio da armação boleada.
Jacob, confundido com a noite, cauteloso de que as trepadeiras que vestiam o Mirante barulhassem a sua presença, quedou, numa estabilidade de simio mal accommodado, esgarçando os olhos á procura de Peregrina.
Ella estava de costas para elle, que a via, mysteriosa, mexer uma mascara, de applicação desconhecida, vasando ether sobre pastas de algodão.
Pelas frestas da janella, xadrezada, mal collada ao peitoril, sentia Jacob o aroma estonteante do liquido extravazando.
Subito, viu-a deixar o contador alto, e recostar-se sobre um canapé João V, cujo estofo côr de brasa lhe illuminava a figura marfilenea, vincada de sombras. Recuperára a antiga compostura fidalga.
Os traços de amargura, que lhe tatuavam a physionomia, não lhe venciam a raça:—era a mulher fraca, simulando força. Tinha o aspecto de quem despreza a vida, cumpria o destino.
A sua figura desbotada, mantinha-se como num tablado, por dar contas a si propria. Nem vigilias, nem dores haviam conseguido deminui-la.
A artista parecia vigiar a mulher.
Preparava-se para morrer. Mas o instincto, e o habito da Belleza, velavam a sua figura estatual, suprema de altanaria.