Ondas fluidas, forças aeriformes, enchiam aquelle quadrado de crystal, em parte opaco pelas folhas das trepadeiras—agora leve como uma asa. Tudo ali parecia voar...
Ella, diaphana, duma transparencia de visão, segurava numa das mãos a mascara que tinha como que á espera, do mesmo passo que applicava ás narinas brancas compressas humidas de ether.
E a boca, da côr das farripas do algodão, delia-se em risos de madrugada, expressões de sentimentos sobrenaturaes.
O ether, fluindo livre, parecia vagá-la pelo espaço; arrebatá-la pela altura.
Mira-Mar era já uma camara alada...
Subito, sentiu um repelão forte na janella estreita do lado do Mondego. E, a seguir, outro, que lhe partiu a fecharia, escancarando-a.
Uma lufada de vento dispersou, rapida, aquella atmosphera de morte e sonho. E Maria Peregrina, como voltando dum mundo de nevoa, encarou, somnambula, o anão, que cavalgava, audaz, o peitoril da janella, com a cabeça rente á ogiva.
—Que fazes? perguntou, numa voz de surdina, que parecia magoar-lhe os labios de lirio pisado.
—Venho impedir que te mates. Concede-me esse direito. É o direito de quem abdicou de tudo, desmentiu até hoje a raça, passando de nomada a escravo muito de vontade.
Eu sei que tens tido amarguras... Ainda esta manhã elle tas causou, a ponto de resolveres esta loucura.