Estamos sós. Deixa-me falar á vontade. Era como exigias que te falasse quando sophismavas o amor commigo. Não é o anão, o rafeiro quem fala. É a alma que a natureza acobertou num corpo infame; e que, no entanto, abençôa a sua forma só porque ella foi alguma vez bem possuida.

Na logica dos teus desejos eu fui o histrião e o tapête. Tudo. Até mulher dos teus amantes!

E ria, num riso de metal.

—Hoje, do mundo só te acceito a ti. Cabe na minha humildade o maior rancor.

Dizias que vestia animo de lobo em pelle de ovelha. Pouco me importa hoje que me descubram o animo.

Odeio quasi toda a gente; e, sobretudo, o odiava a elle que, recebendo-te corpo e alma, te vexava e me vexava, tratando-me como um farrapo. Como era immundo!

—Cala-te! Vae! Quem te permittiu a entrada? Quem te permittiu que viesses discutir Nuno?

Não te condemno; a tua intelligencia é inteira de maldade...

Acredito o que insinuas—que se serviu de ti! Que mais vae que se servisse elle ou eu?

A materia é una, percebes? As almas é que são differentes.