Pois que os superiores não encontram as almas que procuram em corpos bellos vão até vasculhar as dos monstros...

Não pudeste comprehendê-lo. Foste o demonio, a vibora enroscada, que elle, o desvairado, tomou por uma flor exotica e quiz colher...

Deixa-me! Sáe! e apontava-lhe de novo a janella.

—Espera, olha que estive ha poucas horas com elle!

E ria, numa contracção de possesso.

Has de querer novas, vou dar-tas.

Mas, antes, quero contar-te um sonho. Sonhei a noite passada um crime!

A imaginação da noite vestiu-me o somno de delicto. E eu não tomei o delicto como pesadelo, senti-o como um bem...

Ris-te da exiguidade do meu corpo! Pois não imaginas como é grande o odio que arrasta! Pois que sou o avesso dos felizes, o animal corrido pelos sobejos do bem, sinto-me a expiação de extranhos crimes, e é por horas tardas que o instincto do delicto surde e me embriaga em sonhos de morte. A noite é a camara escura onde revelo os perfis tragicos das victimas, que são todos, menos tu!

A noite passada foi elle! Estavamos na Villa-Feia. Lembras-te do eirado que domina o Ribeiro de Cobre? Foi dahi que o vi comtigo, daquella Eira de Vidro, donde tanta vez espreitei os vossos enleios, duma luxuria que eu sentia cá em cima, esporeado por infernos de ciume. Vós estaveis sob o docel fresco e branco das magnolias...