Era manhã. Um lençol de nevoa intensa vestia as armas reaes do Forte. O tempo concedia aos mortos um lucto branco, um lucto áparte!
Tudo mudára. O mar, ainda ha pouco azul e branco, fez-se rapido em campo glauco.
Era uma larga esmeralda de agua. Nem a antiga côr, nem a velha altanaria!
O ceu, pouco antes zebrado de vermelho e oiro, côres heraldicas de Castella, cerrou em nuvem de sangue.
Só ao longe, para os lados da Grecia, uma nesga de azul delido rompia suave, como para informar que os Deuses velavam os mortos que haviam de resurgir com a velha Attica!
O mar toava a mesma musica extranha...
Enquanto, do outro lado, rente ao Fortim, e eminente á escarpa, um moço marinheiro cantava. Era um maritimo trigueiro, de olhos de velludo e noite, guardados por pestanas longas, que desciam, mysteriosas, como gelosias, voz de levada, corpo flexuoso de ephebo da beira-mar, a reflectir nas linhas a belleza inconsciente dum Povo...
Pleno dia.
E a sua alma dolente, côr dos olhos, a desgarrar, em voz de levada, a Cantiga triste do vate-fidalgo:
Commigo me desavim:
Vejo-me em grande perigo!
Não posso viver commigo,
Nem posso fugir de mim!
Antes que este mal tivesse
Da outra gente fugia:
Agora já fugiria
De mim, se de mim podesse!
Que cabo espero, ou que fim
Deste cuidado, que sigo
Pois trago a mim commigo,
Tamanho imigo de mim.[2]