Era a Artista a medir a morte, superior á terra, maior do que o mar! Veiu uma onda enorme. Surdiu, ao longe, como um Pegaso, de asas e crinas crespas, requebrando a sua anca azul través a praia.

Maria Peregrina, que a viu, levantou-se a esperá-la. A agua quebrou junto dos dois num lago de saphira. Ella impelliu o amante num carinho de noiva; e esteve um momento a vê-lo partir entre um roldão de cambraias...

Veiu uma segunda onda. Espatulou na areia uma lingua de agua, foi até á muralha do Fortim, e refluiu, volveu ao mar, chovendo os restos em orvalho de pureza.

Peregrina, que sentiu a onda abrir-se atraz della como uma concha liquida, deixou-se impellir, avançou com ella, e foi mergulhar na resaca da primeira vaga que a esperava com o morto.

E seguiram os dois...

Na areia estava Jacob, fixo como o deus Termo dos campos, numa serenidade inquietante.

Quando as ondas remoinharam os dois corpos num funil de espumas, a sua physionomia visajou infernos, como se partisse, interiormente, elasticos que tivesse a arrepanhar-lhe o carão alvar. Trepou como um gamo a escarpa do Fortim, arregaçou as palpebras, parecendo rebentar os olhos de azeite, numa tensão de myope que tenta ver, que quer ver...

Fixou a primeira agua, muito attento ás flores de neve, hydranjas de espuma em que as ondas se volveram; depois o mar fundo. Nada! Tinham desapparecido! Olhou mais, esfregou os olhos, e olhou ainda... Fixou ao longe o vago liquido daquella massa immensa.

De repente, como quem encontra o que procura, illuminou a physionomia da sua faceira glabra num sorriso de idiota manso, que se foi abrindo em riso brando, e mais, e mais, até que lhe distendeu as maxillas, num gargalhar continuo...

Desceu, vagaroso, as primeiras desegualdades da gruta, depois tombou, num novello, levantou-se, descreveu a curva de terra, fronteira á linha de agua; e, a correr, em gargalhar parallelo ao som rouco das ondas, seguiu o desenho da bahia, a esparsar a loucura em movimento, e sempre a rir, a rir, num cascalhar pavoroso!