Depois olhou em redor como quem acorda ao ruido de passos que não espera.

Era o anão que andava á volta delles como um cão somnambulo, atado a um baraço imaginario, preso á tulipa semi-liquida que marcava o coração do morto...

—Que fazes, bandido? perguntou ella. Podes ir! Já me não perturbas. Segue o Destino!

Erra, segundo o espirito dos cães do teu sangue. Apprende como se transmuda a missão duma raça! Vae dizer aos teus a suavidade das nossas taras e amarguras. Se o genio teutão as comprehende!...

—É cêdo, volveu o monstro, como falando comsigo.

Peregrina voltou a encarar o morto. E, de repente, como batida de luxuria, começou a agitar-se num esvoaçar de aguia tonteada, envolveu-o no seu olhar de treva, falou-lhe, sacudiu-o, afagou-o, até que cahiu sobre elle, mordendo-lhe os labios de camelia pisada, lubricos de morte...

O mar tinha sobre a madrugada uma rhythmica extranha. Parecia ter recebido dos rios e das fontes, que xadrezam a prata a paisagem portuguesa, uma melopeia gemente de melancholias...

As ondas evolucionavam mysteriosamente, encapellando-se ao rhytmo das proprias queixas. Já duas vezes o mar tinha circuitado a renda aquelle grupo, duma selvajaria suave.

Á terceira investida, Maria Peregrina solevou a cabeça, numa atitude de quem trata com o mar como irmã.

Era a descendente de heroes, a desafiar novas fainas e conquistas, agora para além da terra, para além do mar...