Era a madona duma Cathedral a silhuetar um monstro!

Fixou, ainda de longe, o morto. Abrandou o andar, como quem reconsidera... Depois, foi-se approximando num passo miudo de alvéloa receosa.

Elle estava deitado de costas, membros abandonados, descomposto, numa nudez de ephebo, morto mysteriosamente á beira da agua.

Os olhos de vidro, salientes do caseado das palpebras, muito abertas, lembravam os dum santo de capella pobre—contas escuras de camandulas, despedindo traços rectos de suavidade.

Era serena a sua face livida, irmã da luz daquella hora, mal cortando o luar.

O peito era de seda crua, côr da camisa aberta em sanefa.

Floriam-lhe o seio glabro redondos signaes vermelhos. Cada punhalada era uma tulipa de sangue.

Peregrina ajoelhou.

A areia phosphoreava luz de sonho, irradiações de phantastica pedraria...

Ella esteve a mirá-lo com uncção de penitente. Curvou-se a procurar os traços de luz vaga do seu olhar de vidro.