Sempre triste, nem pareces a creança que vi cabriolar ha vinte annos. Emfim, creio que este sossego, quando melhor o comprehendas, hade trazer-te alegrias.
Ha tempos o monsenhor, quando estavas na Italia, disse-me que eras infeliz. Perguntei-lhe os motivos da tua infelicidade, mas fez-se desentendido; limitou-se a affirmar que havia temperamentos felizes e desafortunados e tu eras dos ultimos; que só Deus sabia ao certo as razões das desditas deste mundo, e nós tinhamos obrigação de respeitá-las, as grandes, sobretudo.
Na occasião, magoou-me tal noticia. Depois, lembrei-me de que tambem o monsenhor é homem para exaggerar desgostos, vendo os dos outros, como vê os seus, com amargura serena—a que mais impressiona.
E voltando-se para mim:
—Dei razão á Salomé, que ainda ha dias repetia que Peregrina tem o prazer do soffrimento. Vou crendo que seja assim. Como ella nota, Maria Peregrina não póde com o bem!
—Ah! a Salomé suppõe então que eu faço luxo em ser triste? perguntou Peregrina.
—Pois que duvida?! insistiu a Morgada, olhando para mim de geito a alliciar-me para a opinião da filha:—rica, rapariga de talento, representante da primeira fidalguia de Entre Douro-e-Minho, que mais póde desejar? Deus nos não castigue!
Que, a falar verdade, disse, descendo a voz, e encarando-me, ha um facto que me entristece. Não nos falta prosapia na ascendencia, nem bens, nem honras de toda a ordem; e, no entanto, não temos ascendentes felizes: que immenso drama podemos ler nos pergaminhos de familia!
Não sei se sabe, disse, que no brasão de Lares ha uma linha negra que tarja um dos esquartelados do escudo, separando os appellidos que inculcam a razão fidalga desta Casa.
—Informei que tinha reparado no traço, mas lhe desconhecia a origem.