—É uma historia triste, informou D. Maria Helena. Haverá trezentos annos que um antepassado nosso varou com um tiro numa caçada, em Granada, por desastre, um principe da Hespanha. Dahi o ter sido ordenado que no brasão ficasse perpetuado o lucto pela memoria do Principe e desgosto desse nosso ascendente—D. Arnaldo Affonso Duarte de Biscaia Alvares Moniz e Sá, que depois morreu no mosteiro de Ancêde, em Portugal, frade exemplar, com honras de justo e suspeitas de santo.
Lembro-me de que aquella fatalidade, expressa no brasão de familia, depois de trezentos annos—domine ainda a historia duma descendencia tão illustre como a desta Casa.
Mas deixemos agoiros... É preciso não tentarmos a Deus, conciliou.
E voltando-se para Peregrina:
—Entrega-te a Deus absolutamente. A tua philosophia, no fundo, vale tanto como os meus agoiros:—nada. O que vale neste e no outro mundo é a grande Lei. Não é assim, monsenhor?
E pedia o reforço do prior, que ouvira de pé a ultima parte das considerações de D. Maria Helena.
—É verdade, senhora Fidalga, assentiu. Mas, accentuou, sibyllino, cada um tem de servir a Deus segundo os meritos, os talentos, o temperamento que elle distribue... Ora, o serviço de Deus torna-se muito complicado para os espiritos complicados. Não culpe V. Ex.ª a sr.ª D. Maria Peregrina pelas suas especulações sombrias. Peça a Deus que a alegre, e lhe transforme a vontade e os nervos, sem prejuizo dos talentos.
—Deus pode tudo, monsenhor, disse a Morgada, forte de fé. Mas só Elle sabe a opportunidade de intervir.
Seguia a conversa, animada, quando correu o reposteiro da esquerda, entrando na sala uma linda rapariga de 25 annos, proximamente, loira, olhos azues, rosto branco, ligeira e graciosa.
E a Morgada, interrompendo-se: