Se alongava a vista ou a quebrava sobre os crystaes, descobria as nossas almas, ricas de imprevisto apocalyptico, desencontros de grotesco, curvas complicadas pelo genio do Feio, atrophias, que eram as sombras dos monstros soberbos que os lindos corpos abrigavam. A minha sensualidade redobrava, e eu, apertada ao corpo moreno ou branco dum principe em Belleza, mergulhava o olhar nos espelhos, que nos espalmavam, engrandeciam, ou afilavam, e vivia aquellas silhuetas e amava nellas o monstro que era, os monstros que eramos!
Fóra, alternavam-se collecções de harpas, violinos, psalterios, e orpheões cantando a Vida.
E os jorros de luz esparsa através dos crystaes de côr, esbatendo-se em manchas de esmeralda, roxo-e-oiro, banhavam de melancholia aquellas notas, deixando suppor que era a Luz que as cantava!
Gosei soffrendo; soffri gosando. Pratiquei actos que foram além de mim; uni-me a corpos de creanças; tive contactos, commercio de sensualidade com os mais bellos adolescentes.
Fui anjo e fera, mas fera de asas que partia ás travessias da Ventura, sem liames, sem programma, viuva de preconceitos. Troquei pela intimidade com poucos as devassidões, os respeitos, a consideração vulgar dos chamados homens moraes, seres aleijados pela grossaria do costume. Mas muita vez o temperamento me chamou a definir-me.
Dahi a predilecção pelos dois adolescentes de Petersfield, e a razão do mais entranhado sentimento de amor por Nuno, essa figura passiva da minha loucura, que admirei em sua lassidão.
Ah! depois das nupcias com o morto de Petersfield e das vigilias com Helen, ninguem me deu ainda a elevação da Dor-prazer em que elle me afogou, nos afogamos...
Mas todas as sensações que me deu eram afinal acasos da sua carne abençoada.
Approximei-me daquella alma que me pareceu transparente como a agua dum ribeiro.
Era geada insoluvel, crystal espelhante, mas denso, que contrafez dolorosamente a minha doce imagem amoral.