Assim alou as duas. Foram quebrar a monotonia do sagrado mundo, pintalgar o Ceu de riso e loucura!

Abracei a innocente que pouco depois vestia de afagos um cordeiro branco que mamava de joelhos, rente á mãe.

Como comprehendo hoje a força duma tal voz, que tutela o genio, o crime, perversões, loucuras...

É a voz da alma a ordenar. Não sei se a voz de Deus!

Quando confronto os actos communs da vida com aquelles que me perturbam, vejo que o meu genio não é uma acuidade da intelligencia—é um mysterio emocional.

Deus reparte-se pelo genio creador dos artistas, e revive o poderio nas suas dores. É por elles que accrescenta o Bem, ampliando a geographia do Ceu com o Mal, ainda contra os da sua Egreja. Mas estas provas produzem as maiores tempestades da alma. E é facil ainda aos mais fortes succumbirem.

Eu elevei-me pela Dor. De mim desfiro melancholia, torturas, suavidades...

A Dor foi a minha Arte e teve um largo apprendizado. Primeiro percorri os museus, dando-me a reconstituir, segundo o meu genio plastico, as bellezas mutiladas,—isto para apprender a ler as linhas, coisa mais difficil do que ler os folios.

Depois apprehendi toda a perfeição, e sensualizei a forma. Fundei em Athenas o Templo de Amor,—um Paço de Luxuria. Havia ali um tracto sagrado, a Sala sensual, que me abrigou loucuras suaves, e tempestades de goso, duma nevrose sacudida e bemdita. Nesta sala, vestida de crystaes, concavos e convexos, duma asymetria e desarranjo de cháos, gosei dezenas de corpos alvos e morenos, que desenvolviam nus as curvas das sereias, em danças desvairantes. Tenho no peito o abraço dessas esculturas enleadas, marmores de innocencia e vicio, corpos sagrados pela pureza ideal da fórma. Se attentava aquella seara de carne, batida pelo temporal duma sensualidade abençoada, eu era o suão morno que beijava e confundia os lindos fructos.

Fui a haste exotica, o joio genial que, afrontando a seara, colhi a sua belleza e fui colhida.