Os philosophos serenos são em regra mentirosos.

Contra Maeterlink affirmo que ha uma fatalidade interna que domina e rege os actos dos homens. A forma suprema da justiça é a Bondade. Mas esta forma, acceite pelo conceito medio dos eleitos, está sujeita aos entraves, ou causas de erro duma força inferior a que imprecisamente chamamos temperamento.

Um dia, na adolescencia, percorria, sózinha, um atalho. Senti barulhar a folhagem num carvalhal murado. Espreitei, e vi, ao abrigo duma lapa, o ultimo acto duma tragedia unica. Uma creança, que podia ter nove anos, acabava de matar outra de cinco! Aproximei-me. A criminosa segurava uma lamina, encarando, attenta, a victima.

—Que fizeste? perguntei.

E ella, serena:

—Não sei, ouvi uma voz que disse:—mata a tua irmã. E eu, que móro além, fui a correr buscar esta faca. Não sei se foi Deus quem mandou... Já está morta?

E sorria, espectrando na lamina o Deus suave das creanças...

A victima era um bocado de marfim e oiro, abandonada no chão, entre a serguilha grossa do vestido, a borbotar do peito alvo cravos de sangue. A outra parecia uma mulhersinha, de olhar quebrado, bandós escuros, face de cobre e sombras, typo de cigana enlouquecida, duma serenidade arrepiante junto ao delicto innocente!

—Não sei se foi Deus quem mandou... dizia.

Seria, penso. Que Elle ás vezes capricha em desnortear os commentadores. Queria as duas creanças; e, por isso, ensandeceu a mais velha que despedaçou a outra como o faria a uma rosa...