Corria o tempo, e eu, muda, quieta, somnambula, a fitar as rosas, todas de seda crepe, e, ainda assim, bellas e cheias de graça no seu desenho fino e desegual!

Depois, a meio da tortura daquella visão sombria, recobrei-me, pensando em Deus. E vi que defraudando-me, se castigava. Elle não podia, sem desfalque da sua divindade, abdicar da Côr:—dar ás rosas o tom da sombra, embora tocado da belleza da noite, podia ser capricho, nunca um proposito eterno!

Chamei Deus a mim, num esforço ingente de Artista que requer o Elemento para trabalhar, produzir, crear...

E, desde logo, o sonho se esbateu em claridades. As flores começaram a colorir—milagre de Deus, da madrugada, do meu olhar!

Deus troca a sua alma com a minha. E sua alma cabe em mim.

Convenço-me de que o lisonjeia a troca—pois a minha abnegação e bondade não têem a caucioná-las immunidade alguma.

Vivo pelo Amor todo o amor, os maiores desalentos, o proprio odio, os fados desgraçados...

A intenção da minha ultima jornada foi duma pureza absoluta.

Elevou-me a isenção; por ella desprezei a Moral. Ser moral é servir a conveniencia; raramente é ser bom. Collidem quasi sempre a Bondade e a Moral.

Esta é muitas vezes hypocrisia a reflectir trapaça, iniquidade.