—E porque não? inquiriu commovida Salomé, beijando-a. És a culpada das tuas infelicidades, afinal de meras melancholias. Sê o que deves ser. Vê o que se passa commigo, quasi sempre na aldeia, em companhia de mestras hediondas, e sempre alegre, até feliz. Tudo me é sympathico, a paisagem, a gente do Mosteiro, as mil coisas que me rodeiam; tu nem pareces deste mundo!
—Sim, é certo, concordou Peregrina; sou a obra postuma daquella rapariga que ha vinte annos era alegre!
—Mas porque não hasde voltar a sê-lo? Remete-te á antiga vida de Lares. Procura-te nas recordações, e esquece algumas horas más, se as tiveste. Todos podem ser felizes, ainda aquelles que os outros suppõem desgraçados. Em Soutello ha um cego que me condoeu quando o vi a primeira vez. Pois não conheço pessoa mais resignada. Imagina que vê; descreve tudo a seu modo; e como tem uma imaginação alegre, só vê coisas alegres.
—Sim, acredito. O peor não é ser cego: é termos de conduzir de olhos abertos um temperamento cego.
Salomé olhava, commovida, para a Artista. Percebi que ia sendo inconveniente perto daquelles dois espiritos que pretendiam ligar-se pelo passado.
Retirei com o monsenhor. Conversamos acêrca de Peregrina. Perorei a apologia condicional da obra della, explicando as minhas reservas para uma parte do seu trabalho, pelo que ahi havia de doentio.
E monsenhor, como falando comsigo:
—E quem sabe se o talento della não é a doença? Se curando-se não faria de si uma creatura vulgar! Não sei porque, murmurou, imagino que a sua obra prende na malha dos seus nervos, que parecem feitos de seda e esparto... Repare nella! Veja como a alma lhe tatua o rosto, permeavel ao soffrimento; os livros della são a sua physionomia; revivem, exprimem tudo—corpo e alma.
Extranhos commentarios para um padre, antigo regular da Ordem de S. Vicente!
Notou a minha extranheza e, muito sereno, commentou: