Era o index duma alma polychroma, vasando luz e sentir na alma ductil do violino.

Executava um trecho de Chopin. Nas ondas daquella harmonia nervosa e suave, casara-se tudo—o genio de Chopin, a alma do violino, o enredo daquelle tecido de musica, simultaneamente divino e infernal, sobretudo a vibração dos nervos dolentes de Peregrina, esquecendo outras cordas...

Victoriamo-la, quando acabou. O remoinhar daquella alma emotiva de mysterioso, communicara-se, afinal, a todos, a tudo. Deixára no espaço nervos, fios quebrados de harmonia...

—Muito bem, dizia a senhora de Soutello, levantando-se, leve de enthusiasmo, a beijar, carinhosa, a Artista.

—Soberbo! dizia a Salomé.

E orgulhosa:

—Querias então que fossemos cumplices no teu silencio? Nunca!...

E retirando com Peregrina para o vão duma janella:

—Que alma emprestas á musica! Ainda me lembro da penultima vez que te ouvi tocar. Era creança, mas recordo-me, como se fosse hoje. Eu fui, com recato, procurar o violino, e, quando menos o esperavas, pedi-te para que tocasses. E, então sem as hesitações de ha pouco, fizeste-me a vontade; lembras-te?

—É verdade, concordou Peregrina. Tens saudades desse tempo? Tambem me lembro delle, pois foi do melhor que passei. Mas entro na sua rememoração como num templo, onde vivi crenças que morreram. A rapariga de então não existe mais. Sou a sombra della, a aventureira, que talhou alegrias e paz, que não podia viver.