Juntámo-nos, trocando impressões sobre a Casa de Lares. De passagem, Peregrina chamou a minha attenção para o mobiliario, que dizia deteriorado, mas authentico, e raridades de faiança portuguesa, velhas porcellanas da China, telas, marfim e a sua collecção de esculpturas, copia de bons modelos, com uma ou outra figura assignada.

Entramos em casa á hora em que o sino do Mosteiro annunciava a missa do dia. O monsenhor devia estar a revestir-se. Violet e Salomé seguiram para a Egreja.

Dei razão ao orgulho de Peregrina, insinuando attenção para o resto da grandeza que podia ler-se no interior de Lares.

A sala de entrada, coberta por um tecto em masseira, que repetia na face mais larga o escudo dos portaes, era vestida de carvalho, tendo em baixo um socco de vara e meia de alto, almofadado, e com feitios que variavam, segundo o desenho asymetrico dos cachorros.

Entre o roda-pé e o faixeado alto entalhavam os retratos de familia, emmoldurados em tiras de carvalho bordado, com escudos a marcarem a prosapia dos retratados.

Nos intervallos dos retratos havia contadores hispano-arabes, um cravo; ao centro, um buffete de pau santo.

Sobre estes moveis pousavam alguns bronzes, lavores de marfim, exemplares de olaria, contadores minusculos de oiro e tartaruga, joias,—tudo o que podia recordar a belleza passada, o capricho exotico dum mimo fidalgo e senhoril.

Dentro, a sala seguinte era um compartimento pequeno com tecto em castanho, dourado, talhado em xadrez, de florões caprichosos marcando a juncção dos quadrados, guarnições do mesmo desenho e um socco desegual. Em volta bancos gothicos guardavam nos escaninhos preciosidades, bugigangas de Arte.

Era nesta sala e sobre umas credencias, muito enfloradas de boa talha do renascimento, que pousavam as melhores estatuetas da collecção.

Percebia-se o amor posto na sua guarda, tão escrupulosamente tinham sido conservadas. Nalguns panos da sala, havia telas esbatendo talento, sonho, ingenuidades épicas.