—É o Sr. Manuel Thomé—o traço de união entre a Democracia e o Mosteiro.

Attentando nelle e ouvindo-lhe, por momentos, a philosophia alinhavada nas brochuras baratas,—vi que era um arremêdo dalguns enchedores de gazetas, que sacrificam á terceira refeição o banho diario.

Em dez minutos discorreu sobre politica, economia, moral, vida amoral.

Salvou-nos de dissertação mais estirada um pequeno de physionomia antipathica, com geitos de saguí—um Thomé em miniatura, que, á semelhança do pae, usava as mãos descidas, como a procurar vocações no chão.

O pae, o Sr. Thomé, explicou que o pequeno lhe esgarçava os bolsos do casaco, em repelões de fome, pois que era fraco, a missa fôra tarde e elle viera em jejum.

E nós, em côro,—Peregrina, as senhoras de Soutello, e eu:

—Que o pequeno tinha razão; fosse o Sr. Thomé repastar-se com a familia, pois era preciosa ao Mosteiro a sua saude.

Suspirei de allivio quando o vi longe. Maçava-me a ingenuidade daquelle phonographo de democracias idiotas. Daquillo tinha visto em Lisboa.

E Peregrina, dando pelo enfado:

—Coitado, é tão nosso o exemplar! Conheço os inferiores de quasi todos os paizes. Mas o typo Manoel Thomé é caracterizadamente português. Veja o seu desdobramento no parlamento, no comicio, na escola, na chronica litteraria—em toda a parte. É a democracia soez, pintada de cynismo, a pompear requintes tirocinados em sociedades de infimos.