E num encolher de hombros:

—Vamos tambem almoçar. Sigamos as indicações da Providencia, que, desta vez, foi o pequeno.

Dirigimo-nos para casa.

Conversei as amarguras de Peregrina até ás seis horas da tarde do meu segundo e ultimo dia de Lares.

Áquella hora abracei a Artista, e parti para Guimarães com um maço de papeis. Este maço compendiava uma parte da sua vida, alguns dos episodios que mais a vinculavam á desgraça, cuja historia prometti escrever.

Vou cumprir. As tempestades que a sacudiram e lhe determinaram as perversões e quedas de vontade ultrapassam a pathologia conhecida.

Este livro edita um Novo-Mundo interior. É a teia de sonhos e delirios duma grande Artista, desvairando á mercê dos nervos,—afinal a biographia, um tanto romanceada, duma figura singular, cuja obra existe e é o fio-mestre desta novella, que vale bem o subtitulo—Tragedia extranha.

[III]

«D. Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de D. Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de D. Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, nasceu em 31 de outubro de 1880.

O brasão da muito illustre Casa de Lares explica alguns daquelles appellidos. Consta dum escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas reaes de Portugal, pelo appellido Alvares, e, no opposto, as reaes de Castella, pelos appellidos de Lorena e Villa-Verde, lavradas em mantelado de prata e circuitadas de negro. Destacam neste leões de purpura batalhantes, bordados de oiro e veiros de côr, á volta.