Por timbre usa a Familia de Lares um cysne, armado de oiro, segurando no bico uma aspa vermelha, com escudos alternados de Portugal e Castella.»

Assim o escreveu D. Antonio nas Memorias genealogicas e Nota Privativa da Casa.

Os escudos lavrados na cantaria do edificio attestavam a historia do velho solar de Lares, confirmando os archivos.

Maria Peregrina sentia-se extranha ao mais da sua linhagem. E se a devassava era para averiguar amores pouco fidalgos. Comprazia-se em ler, para além dos escudos, romances de ligações humildes.

A sua alma, exquisitamente vincada e polychroma, sobrepunha-se aos esquartelados dos brasões.

Talento, physionomia, fraquezas—tudo reflectia a sua figura de contrastes, que o Destino urdira de nevrose e sombras.

Amava instinctivamente as fraquezas como os talentos. Sentia que umas e outros lhe espiritualizavam a figura, tocada de Desgraça, e dahi o perdoar ás duas avós judias que tinham vindo enlear-se na velha arvore dos seus, frondosa de santos, doidos e poderosos.

Por entre a rêde azulada de linhas que lhe prendiam os appellidos, destacava as malhas vermelhas dos erros de amor.

Respeitava estes erros pelo que a explicavam. Entre as linhas de bom sangue que a submettiam e o systema de linhas que lhe dava a figura, sentia o conflicto de duas raças. Era pela desenvoltura do seu corpo de garça, talhado em ambar macio e tostado,—expressão de um povo que vive na penumbra um eterno outomno de genio triste...

Que lhe importava que o sangue semita viesse gafar a sua origem fidalga, se ella vivia, sobretudo, essas gotas de sangue, que em revolta com os globulos de raça, a reflectiam numa casuistica tão diversa da que inculcava a outra gente?