No seu perfil moreno, tocado de sonho e de tristeza, parece que o Destino tinha escripto uma parte da sua historia.

Perdera cedo o pae, aos nove annos. Da mãe, victima do nascimento della, ficaram-lhe memorias, casos de bondade que toda a gente repetia. Manoel de Sousa Campello e Pamplona, senhor do vinculo e Casa de Soutello, fôra seu tutor por disposição testamentaria de D. Antonio. Mandou vir uma professora inglesa para a instruir em linguas, lição de coisas e principios de Arte.

Duma grande precocidade, Maria Peregrina seguia, com excepcional aproveitamento, as lições de Louisa Huley.

A inglesa era uma aventureira intelligente, prendada, que, tendo approximadamente trinta annos, tirocinára o ensino pela Allemanha, Austria e França. Tinha de seu uma grande mala com seis vestidos de passeio, o talento das linguas e o ar de quem ensina prendas e vicios para gastar nervos.

Maria Peregrina e Louisa afeiçoaram-se profundamente, excessivamente.

Lamentava a ama de Peregrina, a velha Clara, a indiscreta afeição da extrangeira, que viera roubar-lhe os carinhos da menina...

E, da mesma forma, a Salomé, a filha dos morgados, mais nova cinco annos do que Peregrina, se sentia desfalcada nas attenções da prima, muito carinhosa e prodiga de entretenimentos antes da vinda da Huley.

Os de Soutello exultavam.

—Que felicidade darem-se bem, dizia D. Maria Helena para o marido; com o genio voluntarioso de Peregrina o que seria se assim não fosse...

Manoel Pamplona concordava.