A alumna estudava com vantagem. Quando acabou o contrato com a Huley (cinco annos) falava e lia correctamente o inglês, francês e allemão, entrando com uma acuidade que mal se comportava na sua edade nas obras que marcam o genio das linguas. E, da mesma forma, comprehendia e executava musica, surprehendendo a inglesa, muito pratica no seu ensino.

—É um talento precoce, uma sensibilidade! dizia o Tio Manoel, admirado dos progressos de Peregrina, sobretudo da forma porque ella commentava trechos de poesia, esparsos nas selectas, extremando por si a belleza, como os pontos fracos ou extravagantes dalgumas passagens.

Era elle quem a leccionava em português. E ninguem poderia fazê-lo com mais competencia.

Dizia-se modestamente um philologo amador, apesar de ser um estudioso e discorrer Philologia na Revista Luzitana, Instituto, Portugalia e em algumas publicações extrangeiras.

Era muito acreditado pelas diversões eruditas e conhecimentos miudos dos segredos das linguas antigas.

—Os classicos, explicava ao abbade e ao visinho Thomé, parceiros certos do bridge nas longas noites de Soutello, são os meus antepassados em Letras.

E o abbade, concordando, dizia que o morgado era o representante legitimo dos velhos cultores do Humanismo; que não era comprehensivel o talento sem a grammatica, que lêra ultimamente A Idéa de Deus de Arimathéa Coelho—e concluira que Deus torcêra a Idéa do auctor obrigando-o a dá-la em prosa de saca-rolhas; que lia, ás vezes, por desopilar, a chronica dum gazeteiro de Lisboa, pae dum livro—Horas tôrpes,—coisas pelintras, que estavam abaixo dos alumnos do seu tempo, quando iam a meio da Arte; que as Letras iam dizendo bem com o resto...

O Thomé interferia a favor do chronista—que não era tanto como dizia o abbade, que auctor das Tôrpes exteriorizava em parte as suas idéas, que elle, Thomé, escrevêra antes para um semanario de Pindamonhangaba, quando era ainda moço de loja no Tijuco. Manoel Pamplona intervinha sempre, ordeiro, temendo perder os parceiros; sorria intelligentemente para o abbade como a pedir-lhe clemencia para as idiotices do chronista, em que Thomé era commanditario, e depois dalguns rodeios cahia a fundo, muito socio em idéas com o abbade, na ignorancia do grande numero dos plumitivos, e ainda na obra daquelles que não eram idiotas como o exemplar preferido pelo Thomé.

Maria Peregrina, que precisava encher as noites de Soutello, lia quasi sempre, mau grado as observações da Tia e as reprimendas carinhosas de Manoel Pamplona.

Preferia ler traducções de poesia latina ou grega. De vez em quando, levantava-se a inquirir o Tio sobre casos complicados. Queria apprehender a Poesia no mais largo significado. E irritava-se porque, apercebendo-a no rhythmo, na idéa simplista da imagem, no trocadilho das passagens extravagantes, não podia desde logo penetrar a rêde do maravilhoso que envolve a tessitura classica e jogar com o conflicto dos deuses, e todo o genero de sobrenaturalismo. O Morgado entremeava os robers de explicações, pigarreando quando tinha de fugir a qualquer ponto escabroso, posto em discussão pela sobrinha.