Naquella tarde, segundo o costume, os rapazes correram todos para o alpendre. Em minutos, professor e alumnos tinham despido os fatos. Tudo mergulhou. Só Edgar e Hugh se deixaram ficar junto ao tritão;—Edgar muito triste, distrahido, de busto inclinado, parecendo desembaraçar-se da roupa com desgosto; Hugh muito mirado no corpo do companheiro, já nu, de pé, attento e á espera para mergulharem juntos.

Soberbo quadro o dos rapazes que á beira do lago acamaradavam com o tritão, num grande contraste de belleza!

O Tritão era a força rude, o abraço forte da terra e do mar, meio-peixe e meio-homem, o genio mysterioso, assistindo interessado ao que os dois diziam, num silencio de confidente.

Hugh era a belleza vulgar, a media da belleza adolescente, firme nos traços, duma carnação que era um calendario a marcar-lhe a edade, sem uma nota de imprevisto.

Pelo contrario, Edgar era a excepção:—a belleza áparte, no contornado do seu corpo branco, suavemente tatuado de veias roxo-lirio, sem um traço a mais, uma flaccidez destoante, um descuido de lançamento.

Inclinado, repuxava as pernas, deixando adivinhar as rocas perfeitas de seus musculos, que tão bem lhe jogavam a gentileza do corpo, forte e airoso, flectindo-o numa harmonia suprema de linhas.

—Que formoso és! disse o companheiro.

—De que vale sê-lo, reflectiu Edgar com tristeza. A natureza quando nos engendra devia logo equilibrar a alma com o corpo e eleger com as nossas tendencias a mulher de tendencias equivalentes que tivesse de pertencer-nos.

—Ah! exclamou Hugh, percebo. Estás apaixonado por Maria Peregrina. E querias que a natureza te destinasse em Londres uma companheira de Portugal...

—Não brinques. Sei que me é fatal o amor que tenho por ella.