—Sou eu que estou aqui a ouvir-te ha muito tempo. Que bem comprehendes o violino!

—Então, dize o contrario, que bem que o violino me comprehende, respondeu ella, pois que improvisava musica sobre motivos meus.

—Era uma despedida—a despedida de Helen, não é verdade?

—Era, sim:—anesthesiava-me. As ondas de musica podem ser ondas de ether para a Artista que pudér bem mergulhá-las. Por mim não posso. Não sei esquecer, pois que despendo bastante trabalho a fixar... E o culto que tenho pela musica não vae até apagar-me os defeitos ou virtudes do temperamento.

—Tens então muitas saudades de Helen? Dentro de breve tempo estará ella nos braços dum gentleman. Conheço John Brooke de casa de meu pae. É um diplomata muito querido da aristocracia. É bastante mais velho do que ella, mas hãode ser felizes. O casamento foi arranjado pelos paes. Mas, a proposito, deve dizer-se que ha paes que acertam... A que melhor podia aspirar? Bem sei que te dóe a sua ida. Persistes em negar a natureza. No fim ha de succeder-te o mesmo; regressarás a ella mais cedo ou mais tarde.

—Não fales assim, Edgar, se tens algum empenho em ser-me agradavel. Tem caridade comtigo.

—Sabes, Maria, que é por caridade para commigo que penso assim. Por caridade commigo e por amor de ti. Ha que tempos te amo! Chegava a ter ciumes de Helen, que entrava passivamente nas tuas loucuras. Conversava-a sobre os vossos delirios. Tinha um prazer amargo em acompanhar pela dor o vosso fremir de corpos, que nunca podiam casar-se. De toda a tua philosophia só para mim resultou um bem:—estar ao pé de ti, ouvindo os echos duma alma a despedaçar-se num conflicto que tem um unico suppuradouro—o teu talento. O encanto que derramas não podia vencer a natureza, subjugando a mulher que escolheste. Conversa-a daqui a mêses. Creio que o casamento é breve. Verás que mal se recorda do amor em que a usavas. Ah! mas o encanto das tuas palavras, como o talento dos teus defeitos não se perdeu. Tenho tudo no peito. Tinhas ao teu lado alguem que te amava religiosamente...

—Sem me comprehender, objectou Peregrina.

—Não digas isso. Amar é comprehender. Vê como eu, do Norte, me sinto meridional ao pé de ti, só para te pedir um pouco de tolerancia para este amor que recebes como um peccado. Dize o que queres que faça para merecer-te!

Queres que a teu lado seja o pregoeiro do amor exotico, explicando que os nossos corpos se não entendem; que os nossos laços são um commercio do espirito? Comprarei essa mentira por toda a casta de infamia, e irei, de alma lavada, prostituir-me ás casas de pederastia que houver ou tivermos de inventar. Como esbanjas a fortuna dos teus encantos! Tens o talento de te fazer amar, mas não sabes amar...