—Basta, Edgar! Bem dizia eu:—não me comprehendes. Não extranho. Eu sou, de facto, um enigma, o arremêdo da Esphinge, que o capricho dum canteiro exprimiu em pedra á beira do lago. Sou o monstro de Thebas, que resurgiu em fórmas novas. O que vês é o meu avêsso. Não me percebes! Não te devorarei, como o antigo monstro fazia a quem lhe não decifrava o enigma. Petersfield não é bem o monte de Thebas e a Esphinge de hoje tem de ser uma Esphinge civilizada...

Vou explicar-te o enigma que sou. Dizer-te como sou.

Tenho a cabeça das mulheres de Granada, talhada em sombra e sonho; o peito é português; assento o busto no torso de Leão, que é do escudo das minhas armas e das armas da Peninsula,—a bravura do Ocidente; as minhas asas são o genio judaico—a tara duma raça, perseguida, que ninguem acceita, que não acceita ninguem...

—Vamos daqui, Edgar, concluiu num riso amargo.

—Maria, pediu o irlandês, um instante apenas!

—Vamos!

E partiram os dois, silenciosos, perdendo-se no borborinho dos que batalhavam o tennis num recanto do recreio...

*
* *

Passou um mês. Chegou a noite de nupcias de Helen.

Meia noite. Maria escrevia sem cessar desde as 9 horas. Subito sentiu mexer na porta. Levantou-se e foi abrir.