Tinha quedas bruscas, lassidões que reflectia num grande abandono. E foi num desses momentos que a vi sumida nas almofadas da carruagem, falando em surdina á companheira.
Percebi que se tratava duma pequena ordem, disfarçada em pedido.
De facto, Violet levantou-se, abriu um saco de camurça-creme, escolheu dentre outros um estojo pequeno de metal e offereceu-o a Peregrina.
Esta buscou um tubo comprido de lenticulas, tomou duas e entregou o estojo a Violet, que voltou a collocá-lo no saco de camurça. Pude ver o rotulo collado ao vidro-víoleta. Indicava um excitante invulgar.
—Não vaes bem? perguntou Violet, ao sentar-se, rente á companheira.
E mirando-a, com attenção:
—Estás doente? Tão pallida!
Na verdade, ella lembrava uma daquellas figuras em que o talento, a tristeza e a espiritualidade se fundem numa affirmação de decadencia.
Era um busto fim-de-raça o de Peregrina, sombria, extenuada numa indolente indignidade, abandonando-se aos nervos, vencida, e pedindo á Chimica o emprestimo de excitantes, sophismas ruinosos da mocidade em desbarato. E, no entanto, só pude vê-la com piedade.
Era inferior julgar segundo a minha saude moral o caso infeliz da mulher extranha, que parecia reflectir nos seus quebramentos o drama lento duma vida exotica.