Vê-me bem! Se a minha carne te merecer um carinho, heide soffreá-la onde quer que esteja. Não quero que dês pela sua sensibilidade, encapellando-se de restos de amor, porque heide deixar-lhe ainda amor... Nem poderia levá-lo todo, tão grande elle é!

Adeus, Peregrina. Parto com a alma que foi o teu pesadelo. Perdôa-lhe. O corpo deve estar em breve junto á Fonte. Tu amas a passividade, as linhas que podes submetter e emendar nos teus nervos.

Possue-me, que eu devo ser um exemplar excepcionalmente tratado pela Morte. A Morte é tambem como tu—delicia-se, ceva-se na belleza passiva...

Adeus, Peregrina!

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Um anno depois da sahida de Petersfield publicava a Artista a Nova Sapho. O poema acordou em Portugal applausos e protestos. Havia a corrente dos moralistas, escandalizados com os desvairamentos da Poetisa; e havia os camaradas serenos e prestes ao movimento idealista, em que o poema se integrava. Aquelles aferravam-se á conjectura historica e explicavam que a Sapho segundo os sabios não era a lesbia vicienta que a tradição tinha fabulado, mas uma viuva honesta, com filhos e netos, erudita e moral. Para os homens de letras mais attentos aos casos de sensibilidade, o poema era uma affirmação de temperamento—padrão de Arte excepcional que, pondo em foco a vida hellenica, devassava o fio conductor dessa vida atravez das civilizações.

Certo foi que o poema, a despeito dos ataques á moral, desafrontada pelos folhetinistas dos diarios portuguêses, foi lido; a critica acceitou-o, e Maria Peregrina foi consagrada entre um cenaculo pequeno, mas escolhido de cultores e admiradores das Letras.

Quando lhe falavam nos ataques dizia:

—Estou como Liszt—Não me custa esperar. Não escrevo para a gente de hoje.

Enviou exemplares a varios escriptores latinos e ainda a alguns da Allemanha e Inglaterra.