Naquelle estado de abatimento, pareceu-me a unica maneira de sossegar.
De repente, o comboio estremeceu, galgando numa velocidade imprevista. Peregrina, que acordou aos primeiros solavancos, dirigiu-se-me:
—Fez-me bem mudar de logar. Estou melhor e muito reconhecida á gentileza de v. Dormi não sei por quanto tempo, o tempo bastante a cobrar forças que, de subito, me faltaram.
E eu, solicito e curioso:
—Mas V. Ex.ª soffre ainda? Talvez fatigada pela viagem...
—É certo, respondeu, animada pela minha curiosidade, estou fatigadissima. Venho de longe, de muito longe. Sabe v.?—ha um facto que se dá semelhantemente em todos os paizes. É a impotencia, a impostura da medicina em face da doença. Todo o seu empenho é encobrir as deficiencias do mister, illudir, mystificar os pobres doentes.
—Emfim, sublinhou com um riso amargo, não podemos querer-lhe mal!
A despeito de todos os epigrammas com que temos flagellado os medicos—á menor coisa os procuramos. Não occorre chamar qualquer artifice... Na maioria dos casos valeria o mesmo.
Pergunta-me v. o que tenho? Sei lá o que tenho! Tenho o mal-de-viver—uma doença longe da medicina, que me lassa os nervos, cria desejos e sensações inconsumiveis, que me irrita e alheia das coisas consagradas e me afina a sensibilidade para coisas pequenissimas—as minhas futilezas preciosas. Sou indifferente ás trovoadas, e irrita-me o zunir duma abelha. Tenho o maior desprezo pela moral de toda a gente; faço do avesso dessa moral uma verdadeira religião, um culto fervorosissimo.
Envenenei-me outro dia com um ramo de flores de madre-silva. Tive um prazer doloroso na aspiração desse aroma, que sorvi cheia de sensualidade, até cahir sobre uma banqueta, tonteada, numa syncope que foi o espanto do medico que me tratou.