A superioridade, é, como observa Nietzsche, o que está para além do homem. Mas isto que este pensa ao definir o valor alheio não o sente quando se contempla.
Dahi o conflicto. O que produz, o que cria é o que está para além delle. O que discute competencias, e barulha vaidades é elle proprio,—o homem.
Acceitar os talentos e discutir o caracter duma creatura superior é levantar competencias com ella propria:—desdobrá-la em duas figuras que o mais das vezes se desentendem.
A superioridade é uma força áparte. O homem é que intenta dispor a seu talante daquelle valor; e, pois que reflecte a elevação duma intelligencia poderosa, pretende chamá-la a derimir os conflictos da sua sensibilidade de semi-Deus com a que inculca a sua qualidade humana.
Afinal, por si se liberta. A sensibilidade do Artista é um excesso de vida emotiva, uma doença que lhe dá altas e baixas bruscas, e o quiéta quasi sempre num fundo de melancholia, que é a dor reflectindo a aspiração intangivel da fusão perfeita do homem e do Deus que elle apercebe para além de si.
A valvula aberta a este estado unico de dor reside para o Artista na propria exteriorização da Arte. É então o semi-Deus, o creador librando-se para além da miseria humana...
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Maria Peregrina, ao receber os livros devolvidos, cahiu num torpor de doente.
Demais sabia ella que no meio literario conhecido, por entre os applausos dos que a cercavam, havia más vontades, denunciadas em insinuações, e palavras equivocas.
Dava por todos, pelos que lhe não perdoavam o talento e faziam da moral uma arma contra ella, e pelos outros, os que sinceramente a repulsavam pelo seu caracter de degenerada. No meio que frequentára em Londres, sentira dia a dia o reflexo dessa má vontade. Ultimamente, para não ser vexada, deixára de todo os salões particulares, onde perdera relações sem motivo, e donde se afastou para que a não afastassem.