Profundamente individualista, esmaltava os escriptos de dizeres pessoaes, que lhe inculcavam o orgulho, que era o fundo do seu caracter de homem de raça. Em todos os livros marcava o traço do seu declivar de decadente; era, fundamentalmente, um negativista. Cria na Arte. Era ella a sua religião, o seu refugio e tormento.

Áquem della, via a burguesia, que appellidava de utilitaria e estupida, a moral, a ficção. Para além... nada.

Typo esquisito de superior, era difficil nas relações.

Horrorizava-o a descoberta duma grossaria nova. E tinha para si que conhecimento novo era cabaz aberto a novas grossarias que tinha de supportar.

Ignorava-se em Lisboa a sua vida. Os mais alviçareiros sabiam vagamente que uma ou outra vez era visitado por mulheres de reputação suspeita, que variavam nas dependencias do Palacio-Foz, na Avenida, onde vivia.

Andava quasi sempre só. E nos theatros e livrarias em que apparecia, era difficil abordá-lo, pois se mantinha numa reserva educada, que afastava os mais ousados em relações.

Entre o publico e elle estava o editor.

—Os editores, affirmava, são vulgarmente calumniados de pessimas creaturas. Eu prefiro-os ao resto da gente. Não quero saber do publico, nem dos reclamos das folhas, nem dos criticos das redacções, nem do que podem pensar as academias que por ahi praceiam bacharelices.

Basta-me o editor para me relacionar com algum espirito que me entenda, ou qualquer geração por vir que lave a Idiotia que por ahi corre.

E, de facto, não mandava livros ás redacções, nem ás academias, nem ás bibliothecas, nem a pessoa alguma.