—Escrevo para mim e para alguem que não conheço.

Os conhecidos não valem uma linha, informava, no Preludio da Vida Plastica.

Em volta da sua figura, duma gentileza doentia, de aspecto simples, mas mysteriosa, dum retrahimento religioso, mal disfarçado na distracção que affectava, cresciam lendas mais ou menos exoticas a que vivia alheio.

Ainda em casa, era pouco communicativo.

Unicamente conversava com o mordomo, um velho de confiança, egualmente discreto, fechado a qualquer esclarecimento que lhe pedissem acerca da casa.

Para o mordomo, o silencio era um ponto de honra, em tal assumpto. O seu programma era obedecer sem discutir, e calar comsigo qualquer ordem que lhe fosse dada; assim servira o II.º Conde de Nevogilde, um excentrico, e assim servia o filho, D. Nuno de Villar.

Era, de resto, bem simples o seu trato, pois que afora coisas minimas, era de natural indulgente e carinhoso para os inferiores. Esquisitamente methodico, tinha horas proprias para tudo.

Quando fechado no gabinete não permittia que fossem interrompê-lo.

—Se á hora em que leio ou estudo, houver fogo em casa, deixa-me morrer assado—recommendava ao mordomo.

Não havia ordem, nem visita, nem telegramma ou acontecimento que absolvesse um creado que lhe alterasse as ordens.